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Aécio Neves: “O PT faz parte do Centrão”

Após anos de ostracismo, deputado volta a dar as cartas no PSDB e promete liderar a oposição, dizendo que Lula exagera na irresponsabilidade fiscal

Apresentado por Atualizado em 19 dez 2023, 13h07 - Publicado em 15 dez 2023, 06h00

Recém-eleito para comandar o Instituto Teotônio Vilela, braço de formação política do PSDB, o deputado federal Aécio Neves avalia com muito otimismo as perspectivas da sigla. Entre os planos estão a reconstrução de um partido fraturado por disputas internas e debilitado pela perda de prestígio entre o eleitorado. Um baque que se confunde com a trajetória do ex-governador mineiro, que experimentou dias de ostracismo após ser flagrado em gravação pedindo dinheiro ao empresário Joesley Batista. Absolvido pela Justiça em julho, ele retomou o protagonismo no partido, ao articular a eleição da nova direção nacional, e prepara novos voos políticos tanto para ele, que pretende retornar ao comando de Minas, quanto para a legenda, que planeja colocar na linha de frente da oposição ao governo Lula. Em entrevista a 999 jogos, o deputado criticou duramente o presidente — que acusa de irresponsabilidade fiscal e de promover uma agenda do atraso — e a polarização entre petismo e bolsonarismo. Também relembrou o quanto esteve perto de ser presidente da República em 2014 e se disse vítima dos “abusos” da Lava-Jato: “Existia um projeto político por trás da operação, que custou caro ao país e que deu espaço a projetos mirabolantes”. Confira a seguir os melhores trechos da conversa.

O PSDB tem chances reais de recuperar a relevância? O PSDB tem feito um esforço hercúleo para superar equívocos que cometeu no passado recente, como ao não lançar candidato à Presidência da República, o que levou ao pior desempenho eleitoral em anos. A história da legenda é o seu passaporte para o futuro e é isso que é precisamos fazer: voltar a falar com os brasileiros que, por muito tempo, votaram no PSDB. O partido deve liderar um novo caminho para o país.

O senhor está à frente do Instituto Teotônio Vilela, braço de formação política da sigla. Quais serão as suas prioridades? O ITV terá a missão, em primeiro lugar, de criar o que chamo de “farol da oposição”. Já em janeiro vamos reunir uma equipe de economistas, intelectuais, pessoas ligadas a movimentos sociais, para construir o novo discurso do PSDB. E vamos formar quadros qualificados, tanto para as eleições do ano que vem, quanto para a de 2026. Repito: não poderemos cometer os erros do passado. Lançaremos candidato à Presidência, e essa construção começa agora.

Como explicar o fato de o PSDB ter feito prévias para lançar um candidato em 2022 e o vitorioso acabar tendo a candidatura inviabilizada, pouco depois do início da campanha? Eu dizia que o João Doria era um “não candidato” à Presidência, essa candidatura nunca existiu. E o impedimento dessa candidatura prejudicou muito a nossa bancada. Ao contrário do que muitos pensam, Doria não deixou de ser candidato por causa dos seus adversários, entre eles eu, que não acreditavam na candidatura. Foram os próprios aliados dele que o forçaram a desistir.

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“O PT tem em seu DNA a crença de que o equilíbrio fiscal não é tão relevante assim. A agenda do governo é a da gastança. Quarenta ministérios ou algo próximo a isso é um acinte”

Ficou algum ressentimento em relação a Doria e a Geraldo Alckmin, outro tucano que deixou o ninho? Não. O Doria é que deve ter ficado com alguns ressentimentos, uma vez que ele foi impedido até de ficar no governo para o qual se elegeu, mas isso foi uma decisão local. Em relação ao Alckmin, foi uma situação diferente. Lamentei muito a sua saída, mas ele foi compelido a deixar o partido, devido à ausência de espaço no PSDB. Hoje ele certamente é uma voz de bom senso e de equilíbrio no governo Lula.

Sobre a necessidade de um nome tucano ao Planalto em 2026, quem seria a figura ideal? O PSDB tem um nome colocado hoje, que é o do governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite. Ele mostrou maturidade ao abdicar da presidência do partido para se dedicar ao governo, cujos bons resultados serão muito importantes para a disputa em 2026. Ele fala para a juventude, tem uma agenda moderna, tem experiência de gestão. É ele a nossa aposta e estamos todos afinados.

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Ao mesmo tempo, fala-se nos bastidores sobre uma nova candidatura sua. Existe essa possibilidade? Com toda a sinceridade, não penso nisso. Tive a oportunidade de disputar a Presidência, fiz uma campanha defendendo o que acreditava e que me ensinou muito. Lamento que o resultado tenha impedido o Brasil de entrar em um círculo virtuoso, mas acho que hoje o país precisa de uma candidatura renovada. Me sinto extremamente confortável podendo ajudar na consolidação de um nome como o do Leite.

Quais são seus planos para 2026? Eu sou mineiro, não é? O mineiro diz que não se pode colocar o carro na frente dos bois. Há em Minas um sentimento de resgate do que foram os nossos governos. Saí do comando do estado com mais de 90% de aprovação. Depois, a gestão do PT foi desastrosa. E o governo Romeu Zema é protocolar, sem projeto de estado, sem capacidade de se articular politicamente a favor dos interesses de Minas Gerais. Então, há realmente um clima de saudosismo, mas não penso nisso agora.

O senhor diz que o partido deve ser oposição a Lula. Quais os principais erros do atual governo? Primeiro, a gastança desenfreada. O governo busca equilibrar as contas esperando aumento de receita, sem diminuição de despesas. Isso não existe. O PT tem em seu DNA a crença de que o equilíbrio fiscal não é tão relevante assim. A agenda do governo é a da gastança. Quarenta ministérios ou algo próximo a isso é um acinte. E não é para trazer eficiência à máquina pública, é para garantir emprego aos aliados. O próprio Lula respondeu, antes da posse, que seu ministeriado seria do tamanho necessário para acomodar a base. E não é essa a resposta correta. A forma de governo é: o PT para o PT, sempre antes do Brasil.

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Há outros pontos que merecem críticas mais duras? Tomemos como exemplo a educação. Os indicadores do Pisa são vergonhosos. Há também a questão da segurança, a começar pelo que acontece na Bahia, há anos governada pelo PT. No plano nacional, nossas fronteiras viraram uma grande peneira: entra com drogas, sai com armas, sem que o governo tenha nenhuma política estratégica efetiva.

É possível comparar o governo Lula com o de Bolsonaro? O Brasil, infelizmente, saiu de uma política externa comandada pelo bolsonarismo, de um alinhamento ideológico à direita, que nos isolou no mundo, e agora vai ao outro extremo, porque a política externa de Lula é atrasada. Claro que ele faz uma certa reconciliação do Brasil com o mundo civilizado, por exemplo, na questão ambiental, dado o estrago que foi feito no governo passado. Mas ele não consegue se distanciar das ditaduras amigas. O discurso aqui dentro é de defesa da democracia permanente, mas o alinhamento com as ditaduras amigas fazem muito mal.

Mesmo com dificuldades, o governo Lula tem conseguido articular uma base no Congresso. Haverá espaço para o PSDB ser oposição? O que vai definir o PSDB não é o tamanho de sua bancada. Temos legendas na Câmara que terão muita dificuldade de liderar um projeto nacional. Há hoje uma inundação de partidos que crescem na busca de parlamentares, engrossam o fundo eleitoral e fazem mais e mais parlamentares para apoiar o governo de plantão. É um conjunto de partidos, que inclui o próprio PT. Acredito que hoje o PT faz parte do Centrão. São poucos os partidos programáticos hoje no país e, goste-se ou não, o PSDB é um deles.

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Muito se falava de uma terceira via, ao centro, que antagonizasse com o petismo e o bolsonarismo. Ainda é possível? As duas agendas colocadas hoje são muito pobres em ideias. Não é justo com o Brasil nem com as novas gerações que eternizemos essa polarização. Existe vida inteligente entre esses extremos, e o PSDB tem a responsabilidade de liderar um novo caminho, radicalizando ao centro e construindo uma agenda propositiva. O PSDB tem que ser lembrado como o partido da responsabilidade fiscal, do equilíbrio das contas públicas, do Plano Real, das reformas estruturantes, das privatizações. É essa a nova via, e que deve ser liderada pelo PSDB: um projeto liberal na economia e inclusivo do ponto de vista social, focado na geração de emprego e de renda.

Como conquistar o eleitor de centro? Tivemos nas eleições a prência do voto “não”. Agora, é hora de o PSDB dar a chance às pessoas de votarem “sim”, a um novo e audacioso projeto.

“Eu fui vítima de uma ação criminosa da Lava-Jato, que me custou muito, mas tenho a serenidade de que a sociedade vai compreender que existia um projeto político por trás disso”

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Em 2014, o senhor esteve a 3 pontos porcentuais de ser presidente e foi ultrapassado na reta final. Ainda pensa naquele momento? Encontro gente do país inteiro e o que eu mais ouço é: “O Brasil seria outro”. E garanto que seria diferente. Reuni a mais talentosa equipe nas áreas econômica e social. E havia guardado para aquela noite um anúncio: teríamos o ex-presidente FHC como chanceler, ele já havia aceitado. Nós faríamos um governo de excelência.

A ascensão do bolsonarismo teria sido evitada? Sem dúvidas. Assim como também teria sido sepultado o projeto nacional do PT.

Também em 2014, o senhor questionou as urnas. Acha que abriu caminho para os arroubos antidemocráticos do governo Bolsonaro? Infelizmente, há uma narrativa do PT de que “o Aécio pediu recontagem de votos”, e não foi isso. Reconheci a vitória de Dilma naquela mesma noite e nunca coloquei em dúvida as urnas. Quando estava na presidência da Câmara, recebi questionamentos e decidimos fazer uma auditoria, mostrar que as urnas são inexpugnáveis. Perdi as eleições porque me faltaram votos.

O senhor foi absolvido das acusações da Lava-Jato. Há temor que o episódio respingue no seu futuro político? Não tenho o menor receio. Ficou claro que fui absolvido e que fui vítima de ação criminosa perpetrada pela Procuradoria-Geral da República em parceria com os irmãos Batista, que teve como consequência a imunidade absoluta de centenas de crimes que haviam cometido. Essa ação criminosa da Lava-Jato me custou muito, mas tenho a serenidade de que a sociedade vai compreender que existia um projeto político por trás disso.

O que seria esse projeto político? Depois do impeachment de Dilma, os três nomes que eram citados como candidatos acabaram alijados das eleições de 2018: o meu, o de Lula e o de Michel Temer. Lula foi preso. Temer se viu acossado de forma extremamente injusta por duas denúncias que quase derrubam o seu governo. E eu fui vítima dessa atrocidade, repito, criminosa. E vai chegar o momento de os responsáveis pagarem também na Justiça pelos danos que me causaram.

Publicado em 999 jogos de 15 de dezembro de 2023, edição nº 2872

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